Por Dentro do Sistema Financeiro: Os novos bancarizados, do PIX à inteligência financeira popular
Inclusão digital coloca milhões de brasileiros sob a lógica de algoritmos opacos; Cidadão bancarizado é, ao mesmo tempo, cliente e produto
Esta é a oitava reportagem da série Por Dentro do Sistema
Financeiro, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar
por dentro do Sistema Financeiro Nacional
1. Introdução
Nos últimos cinco anos, o Brasil atravessou a mais profunda
transformação financeira de sua história recente. A criação do Pix, o avanço
das fintechs e a implementação do Open Finance expandiram o acesso ao sistema
bancário a milhões de brasileiros antes excluídos.
Essa revolução digital, entretanto, vai muito além de
aplicativos e QR Codes: ela redefine o que significa “ter uma conta bancária” —
e, mais amplamente, o que significa participar da economia.
Se antes a bancarização era um processo físico e
institucional, hoje ela é algorítmica e instantânea. O celular tornou-se
agência bancária; o CPF, identidade financeira.
O fenômeno dos “novos bancarizados” revela uma ambiguidade
central: por um lado, emancipa populações marginalizadas; por outro, integra-as
a um sistema de dados e dívidas em escala sem precedentes.
2. Fundamentação Teórica
2.1. A bancarização e o mito da inclusão
A inclusão financeira, segundo o Banco Mundial (2023), é a
“integração de indivíduos e empresas ao sistema formal de pagamentos, crédito e
poupança”. No Brasil, esse processo começou de forma mais intensa após o Plano
Real (1994), expandindo-se com o Bolsa Família e os programas de microcrédito
da década de 2000.
Contudo, a expansão digital rompeu com o modelo tradicional:
a partir de 2015, com o surgimento de fintechs como Nubank, Inter e Mercado
Pago, o sistema financeiro deixou de depender de agências físicas e passou a
operar na palma da mão.
O conceito de “inclusão” passa, assim, a se confundir com o
de captura digital. Como alerta Shoshana Zuboff (2019), no capitalismo de
vigilância o dado substitui o dinheiro como forma de poder: cada transação
revela hábitos, vulnerabilidades e perfis de crédito. A bancarização massiva
pode, portanto, gerar novas assimetrias de informação entre cidadãos e
instituições.
2.2. O Pix e o tempo real como política pública
Criado pelo Banco Central em 2020, o Pix não é apenas um
meio de pagamento — é uma infraestrutura nacional de liquidação instantânea,
disponível 24 horas por dia. Seu sucesso é avassalador: em 2025, já supera 700
milhões de chaves registradas, ultrapassando cartões e transferências
tradicionais (BACEN, 2024).
O Pix trouxe para dentro do sistema formal milhões de
trabalhadores informais, pequenos comerciantes e beneficiários de programas
sociais. Ele diminuiu o custo de transações, aumentou a velocidade do dinheiro
e reduziu a dependência de intermediários.
Por outro lado, o Estado e as plataformas passam a conhecer
em tempo real os fluxos de renda da população. A instantaneidade, que parecia
libertadora, converte-se em um instrumento de rastreabilidade permanente. O
dinheiro, que antes circulava no bolso, agora circula em nuvem — e deixa
rastros.
2.3. Open Finance e a era dos dados bancários
Com o Open Finance, o cidadão pode autorizar o
compartilhamento de seus dados financeiros entre instituições. O objetivo
oficial é promover concorrência e personalização de serviços. Na prática,
contudo, abre-se um campo delicado: quem realmente controla essas informações?
Ao permitir que empresas e algoritmos definam perfis de
crédito com base em comportamento digital, o sistema cria novas formas de
exclusão invisível — a chamada data poverty (pobreza de dados). O crédito, que
antes dependia da renda, agora depende do padrão de navegação, do horário das
transações, do tipo de celular usado.
Essa transformação insere o Brasil na vanguarda da economia
de dados, mas também exige um novo conceito de cidadania financeira, capaz de
equilibrar inovação e soberania digital.
3. O perfil dos novos bancarizados
Relatórios do Banco Central (2024) e da Febraban (2023)
mostram que os novos bancarizados se concentram em três grandes grupos:
- Jovens de 16 a 25 anos, digitalmente nativos e com contas
em fintechs.
- Mulheres chefes de família, atraídas por programas sociais
digitalizados (Auxílio Brasil/Pix).
- Trabalhadores informais e MEIs, que passaram a usar o Pix
como substituto de maquininha e conta PJ.
O crescimento é mais acentuado no Nordeste e na Amazônia,
regiões historicamente marginalizadas do sistema financeiro tradicional. Ao
mesmo tempo, mais de 80% das transações bancárias no Brasil já ocorrem por
canais móveis, em um sinal claro de que o celular passou a substituir a agência
bancária.
3.1. Efeitos econômicos e sociais
A bancarização digital produziu efeitos ambíguos: de um
lado, ampliou o acesso ao crédito — mesmo que de forma limitada e, muitas
vezes, mais cara. As fintechs popularizaram o microcrédito via aplicativo,
oferecendo valores de R$ 100 a R$ 1.000 com aprovação instantânea.
De outro, o endividamento cresceu entre as classes C e D por
conta do consumo digital e crédito fácil. Segundo o Serasa (2025), quase metade
dos novos bancarizados estão inadimplentes em até dois anos após abrirem suas
contas digitais.
O fenômeno também impactou a economia popular. Vendedores
ambulantes, artesãos e pequenos prestadores de serviço passaram a usar o Pix
como principal meio de pagamento. Em muitos casos, o Pix é o primeiro contato
dessas pessoas com o sistema financeiro formal.
A inclusão, portanto, não é apenas monetária — é também
simbólica: transforma o status de “sem-conta” em “cidadão financeiro”.
3.2 Endividamento nas alturas
A ampliação do acesso ao crédito levou também ao aumento do
endividamento da população:” dados divulgados pelo Serasa (2025) mostram que
27% das dívidas sem pagamento no mês de setembro eram com bancos e cartões de
crédito.
Em seu recente Relatório de Estabilidade Financeira, o Banco
Central afirma que a capacidade de pagamento das pessoas físicas “continua
desafiadora, sob impacto da participação elevada de modalidades mais caras”.
O gráfico abaixo mostra o quanto da renda do trabalhador
está comprometida com dívidas, e como a dívida feita com cartão de crédito
manteve trajetória constante de crescimento desde 2020 – instrumento este que facilitou a entrada de
milhares de pessoas seja aos serviços bancários, seja a novas ferramentas de
crédito por restrição nas instituições tradicionais.
Fonte:
Banco Central do Brasil
3.3. A autonomia em disputa
Contudo, o que está em jogo não é apenas o acesso, mas o
controle. A inclusão digital coloca milhões de brasileiros sob a lógica de
algoritmos opacos. O cidadão bancarizado é, ao mesmo tempo, cliente e produto:
seus dados alimentam modelos de risco, propaganda e crédito direcionado.
Como aponta Manuel Castells (2010), as redes digitais criam
novos centros de poder — e quem controla a infraestrutura controla a narrativa.
A verdadeira emancipação financeira popular exigirá educação digital, regulação
e soberania sobre os dados. O Estado deve garantir que a inovação tecnológica
não substitua a política pública. A inclusão não pode ser confundida com
vigilância.
4. Revolução em andamento
A nova bancarização brasileira é um fenômeno paradoxal:
libertadora e controladora, democrática e assimétrica. Ela representa uma revolução
silenciosa, que incorporou milhões ao sistema financeiro, mas também
consolidou um modelo de dependência tecnológica e informacional.
O Pix e as fintechs criaram uma nova fronteira da cidadania
— uma cidadania mediada por aplicativos. O desafio das próximas décadas será
transformar essa inclusão em autonomia financeira popular, e não em
submissão algorítmica.
Para tanto, será necessário:
- Garantir educação financeira pública e digital.
- Criar mecanismos de transparência sobre o uso de dados
pessoais.
- Fortalecer bancos públicos e moedas sociais (como a
Mumbuca de Maricá).
- Recolocar o interesse social no centro da política
monetária e tecnológica.
Em última instância, a revolução dos novos bancarizados não
será apenas tecnológica: será política.O dinheiro digital pode ser o novo elo
da cidadania — ou sua nova coleira.
Tatiane Correia
Jornalista, MBA em Derivativos e Informações
Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com
passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter
do GGN desde 2019.
https://jornalggn.com.br/economia/novos-bancarizados-pix-inteligencia-financeira-popular/
Por: Prof. José Luís Vasquinho Paredes
Historiador, socialista, Sãopaulino, butequeiro.
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