40 anos da Música "Papai Noel Velho Batuta"
A História Por Trás da Música: "Papai Noel, Velho Batuta" (Garotos Podres)
Seja bem-vindo(a) à nossa nova página aqui no Historiar e Resistir, onde mergulhamos nas narrativas que moldaram os hinos da resistência. Para inaugurar esta seção, resgato uma memória pessoal de dezembro de 1986, quando eu era um jovem punk na Zona Leste de São Paulo, parte do pessoal da Punk Discórdia do Jardim Quarto Centenário.
A Fuga do Velho Batuta em Mauá
A cena aconteceu na véspera de Natal.
Eu e cerca de 60 punks, convocados pelo pessoal do ABC, estávamos reunidos no centro de Mauá para um evento com o tema "Contra a hipocrisia de Natal". Após a concentração na praça, partimos em passeata pelas ruas, e o destino nos levou para perto de uma loja das Casas Bahia.
Na porta, um Papai Noel com sino em punho viu o que parecia ser seu pior pesadelo: uma tropa de jovens gritando em coro um som que ele reconheceu imediatamente, mas que para ele soava como uma ameaça: "Papai Noel, velho batuta!"
O velho não pensou duas vezes: largou o sino e correu para dentro da loja, fugindo daquele pequeno e barulhento levante anticapitalista.
Essa canção que o fez fugir, composta em 1985 e que em breve completará 40 anos, é um dos maiores hits da lendária banda Garotos Podres.
O Jogo de Linguagem Contra a Censura
O vocalista da banda, Mao, esclareceu em entrevistas que a canção nasceu de uma peça teatral de 1982 que não chegou a ser encenada, onde Papai Noel seria sequestrado por menores carentes.
Em 1985, quando os Garotos Podres lançaram seu primeiro disco, Mais Podres do que Nunca, a censura, mesmo no final da ditadura militar, ainda estava ativa. Nesse contexto, a escolha do título foi uma jogada de mestre para ludibriar os censores.
"Naquele contexto [do fim da ditadura], é evidente o que a expressão 'velho batuta' significa. (...) A opção evitou cortes e só enriqueceu a música.” — Mao (cantor), ex-líder da banda Garotos Podres
A substituição de "Filho da Puta" por "Velho Batuta" garantiu que a mensagem de crítica social e revolta punk chegasse ao público sem cortes, mantendo toda a sua força e ironia política.
Um Hino de Ruptura e Conexão com a Realidade
Mao, em entrevista ao Combate Rock (2014), destacou o papel de ruptura que a canção representou no cenário musical da época:
A canção representou "uma quebra naquele momento cultural, em que a MPB fazia o mesmo de sempre e o rock nacional característico dos anos 80 apenas retratava uma juventude dos centros urbano pouco conectada com a realidade político-econômica da época".
"Papai Noel, Velho Batuta" não é apenas um clássico punk; é um símbolo de como o underground soube usar a arte e a inteligência para denunciar as hipocrisias de um sistema que, na época, se vendia como moderno, mas ignorava a realidade social e econômica.
O Encontro de Histórias
Quarenta anos se passaram. O velho Mao se tornou Professor de História, e eu, o punk Saskuatte HC de 1985, hoje sou o Professor José Luis Vasquinho Paredes. Os caminhos da resistência nos cruzaram algumas vezes nas "quebradas da vida". A última vez que nos encontramos, não por acaso, foi em um momento histórico de luta e resistência: na porta do Sindicato do ABC em São Bernardo, no dia da prisão do presidente Lula.
Vida longa ao Mao e aos Garotos Podres!
E que o espírito contestador desse "velho batuta" continue a nos inspirar a Historiar e a Resistir.
Papai Noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Pobres, pobres
Mas nós vamos sequestrá-lo
E vamos matá-lo
Por quê?
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Por quê?
Papai Noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Por: Prof. José Luís Vasquinho Paredes
Historiador, socialista, Sãopaulino, butequeiro.
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