Dez Anos de Silêncio e Natal

Na madrugada de 25 de dezembro de 2015, enquanto o mundo celebrava reuniões e abraços, meu velho pai resolveu partir. Partiu de forma definitiva, como quem já vinha ensaiando a despedida por toda uma vida de ausências.

Hoje, dez anos depois, não posso dizer que sinto falta de nossas conversas, porque o som da voz de José Paulino nunca se fez presente para o diálogo. Nunca dividimos uma cerveja, nunca brindamos com um vinho. Ele, do alto de sua rigidez, me aconselhava a distância dos botecos; eu, por rebeldia ou destino, ignorei esse e tantos outros conselhos do velho.

Nossa relação azedou cedo. Ele era um homem de silêncios pesados e mãos calejadas pelo sonho de "fazer o pé de meia". Seu coração nunca saiu de Portugal, enquanto o meu batia no ritmo das ruas de São Paulo. De um lado, o conservadorismo salazarista, o malufismo, os preconceitos de uma direita intransigente. Do outro, eu, mergulhado em Proudhon e Bakunin, com o espírito punk e o enfrentamento estampado no rosto. Em 1987, o inevitável aconteceu: o choque de dois mundos que não cabiam na mesma sala.

Ele abandonou mulher e filho para buscar a ilusão do retorno às origens. Minha mãe, que amava o Carnaval e o brilho das escolas de samba, tentou segui-lo, mas não se reconstrói uma ponte quando os destinos apontam para lados opostos. Meu pai queria Trás-os-Montes; minha mãe queria a vida.

A vida me cobrou cedo o papel de ser pai. Aos 19 anos, perdi o Renan, meu primeiro filho, em um hospital público da Zona Leste. Na dor mais profunda, meu pai não estava lá. Depois vieram o Bruno, o Victor e o Lucas. Minha meta era clara: ser o avesso do meu pai. Estar presente, ser carne e osso, não apenas um selo no envelope que ele enviava pontualmente de Portugal em cada aniversário dos netos.

Em 2015, o desfecho. O coração não aguentou uma cirurgia de vesícula. Naquela noite de Natal, o Hospital do Servidor Público tornou-se o palco do meu último confronto com o passado. Ali, as forças me faltaram. A coragem que tive para enfrentar o mundo desapareceu diante da porta do necrotério. Coube à Lila, minha segunda esposa e companheira de todas as horas, a tarefa mais árdua: descer aos porões do hospital para reconhecer o corpo do meu pai. Eu não tive coragem. O peso de décadas de silêncio paralisou meus passos.

No entanto, o entendimento veio tarde, mas veio. Dois anos após a sua morte, eu e a Lila viajamos para Portugal. Visitamos Galegos, Vila Real e a deslumbrante região do Douro. Ao pisar naquela terra, ao ver a beleza bruta e maravilhosa daquelas paisagens, eu finalmente entendi o amor dele. Entendi o sonho que ele acalentava: ele queria que a família vivesse ali, cercada por aquela paz que ele nunca soube traduzir em palavras. O que eu via como abandono, ele via como a construção de um paraíso para nós, num lugar onde o tempo parece não ter pressa.

Quando ele se foi, sofri pelas memórias que nunca existiram. Mas hoje, ao olhar para trás, a mágoa deu lugar a uma compreensão silenciosa. No fim das contas, José, o amor é um aprendizado que se faz por caminhos tortuosos.

Descansa em paz, meu pai. No silêncio das montanhas de Trás-os-Montes ou no meu coração, eu te amo.

Pai

Pode ser que daqui algum tempoHaja tempo pra gente ser maisMuito mais que dois grandes amigosPai e filho, talvez
PaiPode ser que daí você sintaQualquer coisa entre esses 20 ou 30Longos anos em busca de paz
PaiPode crer, eu tô bem, eu vou indoTô tentando, vivendo e pedindoCom loucura pra você renascer
PaiEu não faço questão de ser tudoSó não quero e não vou ficar mudoPra falar de amor pra você
PaiSenta aqui que o jantar tá na mesaFala um pouco, tua voz tá tão presaNos ensina esse jogo da vidaOnde a vida só paga pra ver
PaiMe perdoa essa insegurançaÉ que eu não sou mais aquela criançaQue um dia, morrendo de medoNos teus braços você fez segredoNos teus passos você foi mais eu
PaiEu cresci e não houve outro jeitoQuero só recostar no teu peitoPra pedir pra você ir lá em casaE brincar de vovô com meu filhoNo tapete da sala de estar
PaiVocê foi meu herói, meu bandidoHoje é mais, muito mais que um amigoNem você nem ninguém tá sozinhoVocê faz parte desse caminhoQue hoje eu sigo em paz
PaiPaz

Cançao de Fábio Jr..

Por: Prof. José Luís Vasquinho Paredes
Historiador, socialista, São Paulino, butequeiro e uso havaianas.

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