A MÁQUINA DO AUTOENGANO:
Consciência de classe falida e a ética submersa dos seguidores do “minto”
Há um erro em acreditar que o fenômeno bolsonarista é apenas eleitoral, religioso ou comportamental. Ele é, acima de tudo, um colapso de consciência de classe ( o maior já registrado na história recente do país )... aliado a uma dissolução ética que faria corar até os velhos coronéis da República Velha.
O bolsonarismo não nasce do ódio.
Nasce do desalojamento social: a sensação de que o indivíduo foi expulso do futuro.
Um país que não entrega mobilidade social fabrica ressentidos ( e ressentidos são inflamáveis).
Quando falta horizonte, qualquer chefe de torcida vira profeta.
Mas o que realmente impressiona não é a frustração ... é a inversão completa da lógica de classe.
1. Os pobres defendendo o algoz
O Brasil assistiu a algo inédito:
trabalhadores precarizados, moradores de periferias, microempreendedores exauridos e servidores públicos que mal pagavam o IPVA defendendo com fervor um homem que:
– desmontou direitos trabalhistas,
– precarizou a aposentadoria,
– destruiu políticas sociais,
– reduziu investimentos em educação e saúde,
– entregou soberania energética para corporações privadas.
E ainda assim, ele era visto como “salvador”.
Isso não é ignorância:
é a ausência trágica de consciência de classe, produzida por décadas de abandono político e cultural.
Sem educação crítica, o trabalhador passa a admirar quem o oprime e desprezar quem o defende. É a síndrome da casa-grande finalmente democratizada: o pobre fantasiado de elite, defendendo o chicote que o açoita.
2. A ética do rebanho ferido
O bolsonarista médio não segue uma moral ... segue uma identidade.
Não é “isso é certo ou errado”.
É “isso é meu ou é do inimigo”.
Por isso:
– mentira vira liberdade de expressão;
– corrupção vira perseguição política;
– violência vira legítima defesa;
– incompetência vira autenticidade;
– crueldade vira sinceridade;
– blasfêmia vira fé;
– golpe vira “manifestação pacífica”.
Quando se apodrece a ética, resta apenas o pertencimento.
E a ética do rebanho ferido aceita tudo ... inclusive destruir o próprio país, desde que isso humilhe o outro lado.
3. A política como catarse dos ressentidos
O “minto” não seduziu pela inteligência, pela visão ou pelas propostas ( seduziu porque ofereceu vingança).
Ele transformou a política em catarse:
uma arena onde o indivíduo projetava seus fracassos, suas frustrações, seu medo do declínio social.
Ele não prometeu futuro.
Prometeu revanche.
"E NUM PAÍS ONDE A CLASSE TRABALHADORA ESTÁ DESESTRUTURADA, SEM SINDICATOS FORTES, SEM EDUCAÇÃO CRÍTICA E SEM REPRESENTAÇÃO SIMBÓLICA, A PROMESSA DE VINGANÇA VALE MAIS QUE QUALQUER PROJETO."
4. A fé nos vendavais
O bolsonarista não tem ética porque substituiu ética por fé.
Fé em um mito torto, em uma moral improvisada na internet, em uma lógica espiritual que mistura ressentimento, apocalipse de WhatsApp e uma noção infantil de autoridade.
É gente que não aceita complexidade, porque o mundo real dói.
E prefere terceirizar o pensamento a um líder que também não pensa — só grunhe, acusa, destrói.
5. O resultado: o Brasil do avesso
O país virou palco de um fenômeno assustador:
– quem ganha salário mínimo defende banqueiro;
– quem mora em comunidade defende a taxação dos pobres;
– quem usa SUS defende o fim do Estado;
– quem precisa de políticas públicas defende o desmonte delas;
– quem sofre discriminação defende quem a pratica;
– quem é explorado defende quem explora.
É a pátria dos traídos que abraçam o traidor.
A pátria dos feridos que amam quem lhes aponta o dedo.
A pátria dos sem-classe defendendo a classe que os pisa.
Um laboratório de alienação coletiva.
6. E agora?
Agora, assistimos ao final patético dessa era, simbolizado por uma canela infeccionada, um lacre rompido e seguidores que ainda choram por um homem que nunca chorou por ninguém.
O minto foi, no fim, o espelho que mostrou ao Brasil sua ferida mais profunda:
a incapacidade de reconhecer quem é o inimigo real.
E ENQUANTO A CONSCIÊNCIA DE CLASSE NÃO FOR RECONSTRUÍDA, SEMPRE HAVERÁ ESPAÇO PARA OUTRO MITO, OUTRO FARSANTE, OUTRO MESSIAS DE OCASIÃO.
Porque um povo que não sabe quem é — sempre seguirá quem grita mais alto. ... Infelizmente
E hoje vemos o bufão nada poderoso , chorar soluçando por anistia
Soraya Brazuna
Psicóloga clínica
Cientista Social
Comentários
Postar um comentário