A Farsa da Recuperação que Virou Aprovação Automática

 

Era manhã de segunda-feira, calor abafado em São Paulo, e os corredores da escola pública já estavam cheios de alunos que pareciam mais preocupados com o celular do que com os cadernos. No quadro, a professora rabiscava fórmulas, mas a atenção da turma estava em outro lugar: na tal “recuperação” que, todos sabiam, viria como um passe de mágica.

O ano letivo de 2025 trouxe uma novidade que parecia saída de um truque de ilusionista. O secretário de Educação, Renato Feder, ex-empresário da tecnologia, decidiu que os números da escola precisavam brilhar — ainda que a realidade fosse cinzenta. E assim nasceu a regra: a menor nota do aluno seria substituída por um 10 na prova de recuperação. Simples assim. Como se a aprendizagem pudesse ser resolvida com um clique.

Nos corredores, a conversa era direta: “Pra que estudar o ano inteiro, se na recuperação eu garanto o dez?”. A lógica era irresistível. As atividades regulares perderam sentido, os cadernos ficaram esquecidos, e a sala de aula virou apenas cenário de presença obrigatória. Quem faltava demais, esse sim corria risco. Mas reprovação por nota? Quase extinta.

Enquanto isso, a tal Prova Paulista, pensada para rivalizar com o ENEM, tropeçava na falta de computadores, na internet que caía a cada clique, e na pressa dos alunos que respondiam tudo em minutos, sem qualquer envolvimento. O resultado era previsível: notas baixas, desinteresse, e mais uma justificativa para a “solução mágica” da aprovação automática.

No conselho de classe, professores olhavam para os boletins e viam um espetáculo surreal: alunos que mal conseguiam escrever um parágrafo apareciam com duas notas 10, reluzentes como medalhas de ouro. Só que falsas, tão falsas quanto uma nota de três reais. A educação virava fachada, vitrine política, estatística inflada para caber em discursos de campanha.

E a crônica termina como começa, com uma pergunta que ecoa nos corredores e nas casas: que tipo de escola estamos construindo? Uma escola de números brilhantes e alunos desmotivados, ou uma escola de verdade, onde aprender ainda importa?

Por: Prof. José Luis Vasquinho Paredes

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